bolinha ARTIGOS > Yahoo! Music (08/2009)

Tradução por Ivne Souza

 

O próximo e sexto álbum do Muse chama-se The Resistance – apropriado, já que resistir é inútil quando se tratando de Muse. Na última década, o power trio britânico vem quietamente construindo (okay, não tão quietamente, já que tudo que eles tocam ULTRAPASSA as barreiras da excentricidade, mas às escuras, lentamente) uma base de fãs devotos por meio de turnês incansáveis, e agora eles estão seguros para se tornar “A maior banda do mundo”.

Com músicas na trilha sonora de “O Crepúsculo” e no Guitar Hero 5 (“Supermassive Black Hole” e “Plug in Baby, respectivamente), um espaço fervoroso para uma apresentação no MTV vídeo music awards de 2009, e com apoio de Adam Lambert do American Idols (que está fazendo cover de “Starlight” em sua turnê no momento), Muse está destinado a decolar de massivo a, bom, supermassivo. Poucas bandas estão criando o rock sinfônico exagerado que o som explosivo do Muse é, e a hora deles é AGORA.

O líder vocalista e guitarrista Matt Bellamy – cujo tipo com terno vermelho, penteado de galo, e efeitos jackhammer de guitarra foi fantasticamente recriado para o Guitar Hero 5 e cujos riffs perfeitos vão inspirar vários jogadores a tentar alcançar a perfeição nos níveis avançados – recentemente conversou com o Yahoo! Music, não só sobre se tornar um desenho digital, mas também, é claro, sobre o novo e ambicioso álbum do Muse e planos para, inevitavelmente, dominar o mundo.

Y! Music: Então, eu pude dar uma olhada no desenho que fizeram de você para o Guitar Hero, e é muito legal. Como você se sente ao se ver em forma de boneco no Guitar Hero?

Matt: É bem bizarro, na verdade. Eu achei que eles me fizeram um pouco mais musculoso do que eu realmente sou! Mas com certeza faz parte do marketing, ou algo assim. Foi bem divertido fazer, na verdade. Eu tive que vestir um tipo de roupa boba de elástico com bolinhas esquisitas de ping-pong agarradas pelo meu corpo, e, basicamente, me fazer de pateta na frente de uma sala cheia de pessoas. Mas foi tudo legal, tudo legal!

Y! Music: Olha, eu não sabia que eles faziam isso. Eu achava que eles simplesmente estudavam seus passos no palco e imitavam você daquele jeito.

Matt: Não, eles realmente gravam seus movimentos, então eu estava basicamente fazendo mímicas ao som de “Plug in Baby” como se eu estivesse tocando num show, com a guitarra. Captura de movimentos, acho que é assim que eles chamam. Eles simplesmente capturam todos os seus movimentos e colocam sua imagem neles, e aquilo se mexe exatamente como você. É massa!

Y! Music: Também é meio que mais um sinal de que você “chegou lá”, quando você consegue ser um desenho do Guitar Hero.

Matt: [risos] Sim, provavelmente! Com certeza é um tipo de elogio, sim. E também me deu uma vontade – na verdade, me fez pensar se poderíamos fazer um jogo inteiro, com a banda toda envolvida, então teríamos, tipo, uma versão de baterista e uma versão de baixista também. Algumas bandas fizeram isso, e eles fizeram jogos meio que baseados em toda a história de seus álbuns. Acho que seria legal fazer algo assim.

Y! Music: Isso seria legal, mas eu receio que se as pessoas tentarem tocar “Knights of Cydonia” elas ficariam exaustas demais!

Matt: Na verdade, ela está no Guitar Hero 3! Acho que é uma daquelas difíceis que você tem que chegar a certo nível para conseguir tocá-las! [risos]

Y! Music: Sim, com certeza ela é uma das avançadas. E, na verdade, isso me leva ao assunto do seu próximo álbum sendo lançado… Eu ouvi que há uma música nele que será muito mais avançada, “Exogenesis”. E é uma música de três partes!

Matt: Essa música foi conseqüência do nosso interesse, ou melhor, meu interesse por orquestra. Isso é algo que eu sempre me interessei. Eu sempre gostei bastante de música clássica e cinematográfica e esse tipo de coisa, e estou sempre procurando formas de incorporar isso numa banda de rock e no que nós fazemos como um trio. Nos álbuns anteriores, nós experimentamos isso, mas, nesse álbum, nós gravamos três ou quatro músicas que foram meio que a base para o álbum; e, depois disso, imaginamos que poderíamos ser um pouco mais experimentais e fazer coisas um pouco mais ousadas. E uma delas foi fazer uma sinfonia progressiva de três partes! [risos] Não sei mais como chamá-la! Mas eu gosto de pensar que não fomos exageradamente extravagantes com os instrumentos, com como ela foi orquestrada. Acho que você pode ouvir a influência de trilhas sonoras do século XX e música clássica e romântica do século XIX. Para mim, foi um desafio aprender a orquestrar pela primeira vez, eu mesmo fazer os arranjos para uma orquestra pequena, trabalhando nos violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, até tímpano, trombones, várias cornetas… Aprendendo sobre os timbres dos instrumentos e o que eles podem e não podem fazer. É um desafio interessante traduzir sua música para outros músicos, sabe?

Y! Music: Acho que li que você disse que era a “música mais difícil” do Muse…

Matt: Uhm, mais difícil em termos de que certamente foi a que levou mais tempo para ser trabalhada. Levou mais tempo para escrevê-la, para fazer os arranjos, e, depois, gravar e tudo mais. Isso tudo foi trabalhoso. Acho que é uma daquelas coisas que só foi possível porque nós estávamos produzindo. Há mais tempo para investigar algumas coisas quando você não está trabalhando com alguém te pressionando para terminar. Eu sempre penso que essa música não teria sido feita se o álbum tivesse sido produzido por outra pessoa, porque eu acho que nenhum produtor teria nos permitido fazer isso! [risos]

Y! Music: É por isso que levou tanto tempo para vocês lançarem um disco novo? As pessoas estão com fome de coisa nova do Muse!

Matt: Em todos os álbuns tentamos fazer algo que, de alguma forma, modifica o nosso processo de trabalho ou nosso processo criativo. Nós vamos trabalhar em lugares diferentes, ou com produtores diferentes. Desta vez, decidimos construir um estúdio em casa pela primeira vez e produzir o álbum nós mesmos. Então essas foram as duas coisas que escolhemos fazer de diferente. Mas elas acabaram sendo coisas que tomavam bastante tempo! É necessário muito tempo para construir um estúdio direito. E também o fato de estarmos produzindo, tivemos que aprender muitas coisas, sabe?

Y! Music: Uma coisa que eu acho vantajosa é que o rumo da carreira do Muse parece ser o oposto da maioria das bandas, de forma que vocês tiveram a chance de, no passar de vários anos, crescer e se tornar maior a cada álbum. Geralmente, acontece o oposto, e a maioria das bandas não têm o luxo de ter tempo para evoluir.

Matt: É, de certa forma está meio que fora de época, mais em sintonia com como era para as bandas nos anos 70 e 80, onde você está adquirindo uma base de fãs e as pessoas estão começando a conhecê-lo simplesmente de tanto fazer turnês. Nós fizemos turnês até em lugares onde não lançamos álbuns, como na América do Sul, na Ásia Oriental… E, na real, nós obtivemos uma base sólida de fãs mais por fazer turnês do que qualquer outra coisa. E também usando a internet. Acho que a internet é outra coisa que nos ajudou bastante, ainda mais com essa nova etapa. Acho que sempre estivemos meio fora do contexto de marketing em que as gravadoras tentam colocar as bandas. Acho que, às vezes, essas abordagens podem prejudicar o artista. Acho que, às vezes, é melhor permitir que eles evoluam sem muita pressão, especialmente nos primeiros anos. Algumas bandas precisam aguentar tanta pressão logo de início, que, algumas vezes, isso pode tirá-las do caminho ou dispersá-las completamente do que elas deveriam estar fazendo, que é fazer música boa e ser um bom artista no palco.

Y! Music: Muse obviamente já está num certo nível de grandeza nos Estados Unidos, mas eu simplesmente sinto que esse álbum, The Resistance, é o que vai fazer de vocês estrelas aqui, fazer loucuras!

Matt: Ha! [risos]

Y! Music: Eu simplesmente sinto. Há tanto momentum com vocês agora, tantas coisas se alinhando, como a trilha sonora de “Crepúsculo”, os VMAs, Adam Lambert fazendo cover de “Starlight” na turnê do American Idol… Você sabia desse cover?

Matt: Sim, eu vi um clipe no YouTube, e achei um bom elogio. É sempre bom quando alguém faz cover da sua música. O fato de alguém querer ‘adotar’ uma música sua, é um dos elogios fundamentais como compositor e como banda também. Foi bacana. Uma versão interessante.

Y! Music: Ele tem falado bastante de vocês. Até na noite de Jazz do American Idol, o cover de “Feeling Good” que ele fez foi inspirado por sua versão. Ele deu a vocês uma publicidade extra nos Estados Unidos.

Matt: É, é bacana! Eu acho isso legal. Ele vai gravar um álbum logo?

Y! Music: Sim, será lançado neste outono.

Matt: Ok, legal. Seria interessante ouvi-lo.

Y! Music: Então, esse tipo de coisa está realmente inserindo o Muse na consciência das pessoas, e eu só sinto que esse próximo álbum é o que vai tornar vocês grandes, tipo tamanho-U2, nos Estados Unidos.

Matt: [risos] Não sei, não. Isso pode levar mais uma década ou duas! Mas é, nosso terceiro álbum [Absolution], de certa forma, foi quase visto como um álbum de estreia para nós nos Estados Unidos, porque muitas pessoas nunca haviam ouvido falar da gente antes. Isso foi muito empolgante, porque foi uma chance que tivemos de nos sentir como uma banda nova outra vez. Às vezes, quando as bandas chegam a seu terceiro ou quarto disco, pode acontecer delas relaxarem um pouco, mas o que aconteceu com a gente foi que fizemos os dois primeiros álbuns e ficamos conhecidos na Europa e em partes do Japão e Austrália, mas éramos completamente desconhecidos nos Estados Unidos. Então, quando viemos, nos sentimos muito energizados, como uma banda nova outra vez. E ainda éramos meio jovens e achamos tudo aquilo muito empolgante, então nós curtimos, fizemos um monte de shows. Foi isso que nos manteve renovados. E os últimos dois álbuns parecem ter sido muito bem recebidos nos Estados Unidos, e cada vez que viemos fazer shows na cidade, mais e mais pessoas aparecem. Por isso estou muito animado por voltar, e um fato interessante é que estaremos abrindo para o U2 nas duas primeiras semanas da turnê! Então, vai ser interessante, vamos aprender alguns lances com eles.

Y! Music: Uau! Muito rock-de-grandes-estádios acontecerá nesse palco. Que incrível!

Matt: É, vai ser muito bom!

Y! Music: Vocês sentem a necessidade de se superar a cada álbum? Cada disco do Muse é muito ambicioso, mas vocês sentem a necessidade de se superar?

Matt: Superar? Acho que nós pensamos, sim, desta forma, contanto que “superar” signifique mais fazer algo completamente diferente do que algo melhor. Acho que, às vezes, estamos só procurando algo novo, algo que ainda não falamos em nossas letras, ou algo novo na música que queremos trazer. Então, sim, acho que, por um lado, estamos aprimorando certas coisas que tentamos nos álbuns anteriores, tentando melhorá-las. Mas, por outro, estamos simplesmente procurando por algo totalmente novo.

Y! Music: Você comentou sobre influências clássicas, isso foi algo que aconteceu só com “Exogenesis” ou foi em todo o álbum The Resistance?

Matt: Há uma música chamada “I Belong To You” que possui um pouco da influência clássica: a parte do meio é tirada de um pedaço de uma ópera francesa chamada “Sansão e Dalila”, de Camille Saint-Saës. Mas há, também, no final de uma música chamada “United States of Eurasia”, um pedaço de uma obra do Chopin. Então, eu coloquei algumas influências clássicas no álbum, e acho que, de certa forma, isso é um tema. Mas com certeza há outras faixas que são bem mais voltadas para o rock, como “Uprising” ou “Unnatural Selection”.

Y! Music: E quanto aos temas líricos? O último álbum, Black Holes & Revelations, parece ter tido uns dois conceitos no geral, em outras palavras, tendo a ver com o espaço e política. E nesse álbum?

Matt: Sim, eu li o livro 1984 quando estava na escola e meio que me concentrei no lado político dele, mas, recentemente, eu o li outra vez e, desta vez, eu realmente gostei do lado romântico da história no livro. A história de amor entre Winston e Julia. A ideia de uma história trágica de amor acontecendo em um tipo de cenário político, sabe? Eu quis criar algo que tivesse essa emoção. Não é tão influenciado pelo livro, mas pela ideia de um romance se desenvolvendo no meio de um tumulto político. Esse é o tema geral do álbum, eu acho.

Y! Music: Muito legal. Você citou “United States of Eurasia”. Pode me dizer sobre como vocês lançaram partes da música pelo mundo num pendrive recentemente? Que feito foi esse?

Matt: Essa música foi meio influenciada por um livro chamado “The Grand Chessboard” (O Grande Tabuleiro de Xadrez), um livro escrito por um conselheiro de política estrangeiro [Zbigniew Brzezinski]. Ele falou sobre a Eurásia como se fosse um tabuleiro de xadrez ou algum tipo de jogo, quase como um Dr. Strangelove. Você imagina esses caras loucos sentados no conselho de relações internacionais conversando sobre grandes e loucas geoestratégias. Eu simplesmente achei tudo interessante, e, nessa música, tentei repassar esse sentimento de megalomania exagerada. Achamos que era uma das melhores músicas no álbum, então queríamos que fosse a primeira música a ser ouvida pelas pessoas. Então, pensamos em organizar uma coisa na internet que, de alguma forma, incorporasse o conceito do grande tabuleiro de xadrez. Nós, basicamente, dividimos a música em seis segmentos e os colocamos em pendrives codificados que foram espalhados por diferentes partes da Eurásia, e demos aos fãs pedaços de códigos para decifrar. E tínhamos uns agentes de mentira disfarçados que liam o livro, e se os fãs dissessem uma palavra-código exata, eles teriam o pendrive. Isso destravou a música gradualmente enquanto ia acontecendo na Eurásia. Daí, a última parte foi em Nova York, e a ideia era: se os Estados Unidos reconhecessem os Estados Unidos da Eurásia, teríamos o lançamento do mp3 de graça. Foi um jogo divertido, mas também havia uma relação com no que a música foi inspirada.

Y! Music: Adoro o quão ambicioso o Muse é. Vocês realmente se jogam, extrapolam em todos os aspectos do que vocês fazem. A maioria das bandas, infelizmente, não faz isso hoje em dia. Por que as bandas não são tão ambiciosas como vocês?

Matt: Realmente, parece um período mais calmo no momento. Acho que, de certa forma, a indústria musical tem estado meio decadente. Mas acho que, do mesmo jeito, ela está sendo restringida a artistas que estão realmente fazendo música porque eles gostam, porque amam tocar. Ao contrário dos artistas que estão fazendo isso porque querem ser famosos ou ganhar dinheiro. Acho que as pessoas que escolhem esse último estão seguindo com outras coisas, estão tentando se tornar estrelas de cinema, tentando isso e aquilo. Mas eu acho que uma das coisas boas que estão acontecendo é que a indústria está se livrando das pessoas que não estão nessa carreira pelas razões corretas, e deixando as pessoas que amam música e amam tocar ao vivo. Esses são os artistas que vão durar, e eu espero que sejamos um desses.

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