ARTIGOS > Times Online (08/2009)
Muse Retorna com o novo álbum, The Resistance.
Quando eram adolescentes, os três integrantes do Muse tinham o desejo de fazer um show no The Den, uma área gramada que ocupa grande parte de Teighmouth, cidade beira-mar que fica em Devon, onde eles cresceram. E agora, 10 anos depois do lançamento do primeiro cd, o sonho da banda vai se tornar realidade. A cidade estará recebendo por volta de 20.000 fãs de Muse por duas noites (4 de Setembro e 5 de Setembro). “Estou tentando não pensar ‘viu, eu avisei!’” Diz o baterista Dominic Howard.
“Não era como estar no meio de 2.000 bandas que tocam em Camden todos os meses” Wolstenholme continua: “Sem ao menos ouvir as músicas, o povo já perguntava, “De onde essa banda é? Devon?”
Milhões de cópias sendo vendidas, e mais prêmios recebidos de melhor banda ao vivo, Muse agora é um sucesso internacional. Mas, se o status da banda cai um pouco, os críticos hostis de plantão continuam seus trabalhos. Pode parecer estranho fala isso de uma banda que, em 2007, esgotou a venda de ingressos para duas noites de shows no recém reformado estádio do Wembley em questão de minutos, mas de certa forma eles ainda não são reconhecidos. Relembrando as resenhas sobre os álbuns no passado, você fica indignado pelo fato de os elogios muitas vezes soarem tímidos, limitados e defensivos. O vocalista, guitarrista e principal compositor, Matthew Bellamy, era sempre descrito como – é claro que com a aprovação do mesmo – cadete espacial, obcecado por teorias de conspiração, responsável por músicas de nomes como Knights of Cydonia, Supermassive Black Hole, Apocalypse Please, entusiasta de Berlioz e da teoria do big bang. Ficou fácil ver o Muse como estranhos, difícil de engolir, musicalmente falando, como três pessoas que se levam a sério demais.
Sentado na varanda do lindo estúdio de ensaio feito de madeira e vidro no interior da cidade natal dos integrantes, Bellamy não parece nem um pouco sério. Claro, ele já mostrou um grande entusiasmo em monólogos sobre Georgismo (o movimento do imposto de propriedade inspirado pelo economista político Henry George, do século 19), já expressou desgosto para com o sistema injusto de democracia parlamentar, falou de bônus em bancos e pregou sobre a pesquisa de Oliver Sacks dos efeitos da música no cérebro humano, no livro “Musicophilia”. Mas Bellamy logo estará seguindo em frente, com uma risada malandra de garoto, com a arte do primeiro single da banda, Uprising. Eu perguntei se a imagem – de um campo cheio de ursinhos em posição militar – será mostrada no vídeo. “Nós gostaríamos de usar os ursinhos sim, com certeza.” Bellamy ri. “A idéia é ter um bando deles encenando uma rebelião, gerando caos; numa marcha em protesto do lado de fora do parlamento, ou coisa parecida. Sempre achei essa parte da psicologia humana fascinante; O jeito com que projetamos nossas emoções em animais de estimação, brinquedos, objetos. Um bando de ursinhos formando uma rebelião sinistra parece ser interessante.”
O efeito que a música tem no cérebro de Bellamy deve interessar Sacks. Quando formou a banda com Howards e Wolstenholme na escola, Bellamy escrevia letras sobre os desconfiados que os rodeavam e o desespero de querer sair de Devon e conhecer o mundo. Um dos fãs mais antigos e esquisitos da banda tinha, nas palavras de Bellamy, um ‘estilo militar’, e foi em todos os shows da banda e os disse que ele havia notado no Muse traços de compositores românticos – Berlioz, Chopin, Lizst – ele amou isso.
Um visita a casa do apaixonado por música mostrou o seu estímulo por uma série de álbuns grandiosos. “Demos uma volta” Bellamy relembra, “E ele nos mostrou gravações muito boas, num volume ensurdecedor. Foi alucinante”
Os termos mais comuns usados para descrever Muse são “exagerados” e “pretensiosos”. O fato de o álbum terminar com o que Bellamy chama de “música de título irônico” –Exogenesis: Symphony – Uma seqüência orquestrada de três partes que fala sobre a raça humana abandonar a terra para viver em outro planeta – vai, com certeza, fazer com que esses termos voltem a serem usados. Mas, para Bellamy, seu trabalho é bem reprimido. Ele acredita não ser apenas um “amador” em música clássica; é mais complicado que isso. “Muitas músicas do Muse eram provavelmente melhor elaboradas e mais orquestradas pela forma com que eu as ouvia.” Eu sempre as imagino sendo tocadas por uma orquestra sinfônica, ou cantadas por uma grande coro, ou em uma ópera. Se você tem esse tipo de imaginação ativa, você vai caminhar em direção a música clássica. É difícil não soar chato, mas eu diria que o meu interesse é no rock. As pessoas associam a banda com ficção científica, teorias sobre o universo, geopolítica e todo esse tipo de coisa, e eu com certeza tenho encorajado tudo isso, mas acho que uma das razões pelas quais eu insisto nesses assuntos é porque quando ouço ou penso em uma certa música, minha mente acaba produzindo formas ilimitadas de sentimentos, emoções e idéias existenciais.
“Se eu estivesse ouvindo Berlioz ou Beethoven no século 19, eu provavelmente diria a você “Estou ouvindo a voz de Deus”. No mundo moderno, tendo em vista que não sou religioso, eu prefiro abordar outros assuntos, sejam esses idéias sobre o espaço, ou questões políticas.”
Antes de chegar em Exogenesis, o álbum varia bastante de glam-rock a R&B, de sons que parecem desintegrar Bach em momentos em que grandes explosões nos vocais ao estilo Queen se entregam à Nocturne de Chopin, ou um trecho de uma ópera de Saint-Saens que se dissolve numa combinação de sons que dão origem a um espetáculo maligno. Se você é um dispéptico de mente fechada, esse álbum não é para você. Mas, para os apaixonados por dietas infinitamente variadas e ricas em conteúdo, The Resistance representa o cardápio completo.
Em termos de letras, o álbum mostra as preocupações de Bellamy quanto ao direito de votar e protestar, e também se desenvolve pelo do impacto que o livro 1984 de George Orwell teve sobre ele enquanto escrevia o álbum. “Quando estávamos gravando ‘Eurasia-sia-sia’, nós caíamos no chão de tanto rir, e vimos que não podíamos tirar essa parte da música, ou então ela não nos faria rir tanto mais.” Wolstenholme lembra.
Bom, eles estão rindo agora. Dois shows heróicos na cidade natal, um feito que pode fazer com que eles se considerem reconhecidos de agora em diante. E, com sorte, sem mais resenhas com elogios presos a timidez. Muse fez um álbum genial, brilhante, e lindo. Pra que ficar na defensiva?
Uprising será lançada no dia 7 de Setembro, e The Resistance logo depois no dia 14 de Setembro.
