ARTIGOS > Rolling Stone ES (05/2010)
Muse – O Universo se expande
Matt Bellamy se esconde de baixo do nome de Héctor Belioz em um quarto do exclusivo Hotel Mondrian, em Los Angeles. É pouco mais de meio dia e o frontmen do Muse ainda está sonolento porém de bom humor. Após dois meses em turnê pelos EUA e Canadá, pode dizer: “Parece que enfim conseguimos aqui”. O entusiasmo é geral: na banda, a sua volta, no público, na imprensa que elogia seus shows espetaculares.. Tom Whalley, chefão da Warner Bros, sua gravadora nos EUA, diz que “Muse pode ser tão grande quanto queira”. Mas Matt só quer se concentrar sem ser uma grande banda ao vivo. A julgar pelas resenhas ianques, eles estão no caminho. Em todo caso, o cantor não exclui o sonho da fama, e parece que nem da música. Então vamos falar do que realmente importa.
Rolling Stone: Você tem tem tido tempo de seguir a sexta temporada de Lost?
Matt: Sim. Tenho visto na televisão americana. Creio que perdi alguns episódios, mas o resto pude assistir.
RS: Qual a sua opinião sobre os que você viu?
M: Me parece que o início da temporada foi um pouco ruim, um pouco estúpido, mas melhorou muito. Meu episódio favorito desta temporada é “o do Richard”.
RS: Tem alguma idéia de como pode terminar a série?
M: Creio que Lost se converteu em um conto alegórico sobre o Bem e o Mal, não? E me dá um pouco de pena, porque eu esperava uma explicação mais científica. Suponho que o fim da série terá a ver com Jacob e aquele outro, Gordon, ou qualquer que seja a sua próxima encarnação. É uma grande referência à religião. Eu queria algo empírico, científico.
RS: Sua turnê na América do Norte termina na próxima semana, e você não vai voltar à turnê até o fim de maio. O que fará nesse meio tempo?
M: Não tenho idéia. Antes da turnê ensaiaremos. Antes disso não tenho idéia.
RS: Estará na Inglaterra para as eleições no dia 6 de maio?
M: Sim, claro.
RS: Vai votar?
M: Sim.
RS: Em quem?
M: No partido liberal democrata, só porque são diferentes. As pessoas na Inglaterra estão cansadas de tantos anos de conservadores. Seria bom experimentar algo diferente.
RS: Qual o seu prognóstico?
M: Um parlamento em minoria. O Partido liberal Democrata terá que colaborar com um ou outro partido majoritário, dependendo de quem ganhe. A política de partidos é um problema, tem que acabar. É um sistema antiquado que sequestra a democracia. É ridículo. Você vota em um político que representa o seu distrito, o seu pequeno povo ou pequena cidade, e espera que essa pessoa legisle ou vote por políticas com que essa pequena cidade precisa. Porém essa pessoa chega a Londres, se esquece do que os seus eleitores pediram e , as vezes até em prejuízo da sua própria comunidade, faz o que o seu partido quer.E o seu partido quer o que os grupos de pressão querem. Enfim, a unica maneira de parar com isso é acabar com a política de partidos, e que a representação seja em efeito local.
RS: Um Senado por cima do parlamento, talvez.
M: Bom, também temos isso. Os lords são os nossos senadores. Mas eles não são votados, são escolhidos pela rainha e pelo parlamento. Então…
RS: Somente Gordon Brown ou David Cameron podem ser tornar primeiro ministro. Quem sabe uma vitória de Cameron poderia te servir de inspiração para o próximo álbum…
M: [Risos] Confiarei nos Liberais Democratas. Eles têm alguma idéia progressista interessante. Mas, infelizmente, suponho que tudo continuará igual.
RS: Cameron se encontrou com Barack Obama e lhe deu de presente 3 discos: um do The Smiths, outro da Lily Allen e outro do Gorillaz. Você teria gostado se ele tivesse dado de presente um do Muse?
M: [Risos] Não, certamente que não. Não gostaria de ter nada a ver com o gosto musical de David Cameron.
RS: Ouvimos que você tem mostrado aprovação diante da possibilidade de escrever uma música para o próximo filme de James Bond.
M: É uma possibilidade, sim. Seria muito interessante. A música cinematográfica sempre me influenciou muito. Também há possibilidades de fazer toda a trilha para um filme, não só a música principal.
RS: E uma música para o mundial Sul Africano?
M: Seria genial, mas muito difícil. Teria que encontrar algo comum para todo o mundo…
RS: Não. Me referia a uma música para a seleção inglesa, já que parece que a federação voltou a recorrer ao “Three Lions” de 1996.
M: Para a Inglaterra? Não faria uma música para quem irá perder [risos]. Seria um movimento muito arriscado.
RS: Durante essa turnê, em particular pelo seu êxito nos EUA, dá a sensação de que você alcançou um teto. Você se sente assim?
M: Não.
RS: Não digo “o” teto e sim “um” teto.
M: Nós gostamos de dar grandes shows, sendo uma grande banda ao vivo. Gostamos da nossa boa relação com nossos fãs através do palco. Gostamos da idéia de levar apresentações ao vivo a um nível superior. Não estou interessado em ser famoso, e sim em estar em um palco. Assim podemos nos entreter. Fora não. Nenhum de nós três quer se comprometer com nada que não seja a música.
RS: Tem em mente algum movimento futuro?
M: Sempre quisemos fazer uma parceria com uma orquestra. Mas não falo de um álbum e sim de uma apresentação, um show, algo assim. Uma série de shows em uma série de cidades específicas, em teatros. Não uma turnê, uma mini turnê. Porém temos muitos e grandes shows pela frente este ano – uma turnê européia por estádios – então não dá pra pensar em outra coisa senão a curto prazo.
RS: Falando da turnê européia. Na Espanha vocês tocarão no estádio Vicente Calderón, um lugar que só se atrevem a tocar bandas como U2 e Rolling Stones. O que isso significa para o Muse?
M: Somos pessoas que assumem riscos, e queremos chegar a este patamar. É triste que só as bandas dos anos 60, 70 e 80 façam shows desse nível. Nós queremos devolver ao jovens os shows de estádio. É uma experiência energética. A atmosfera de um show de estádio, seu ar de evento esportivo, ou de
gladiadores, gera uma grande união, nós sentimos que estamos juntos em algo. É algo importante para os jovens, agora que estão sendo abandonados pelos seus governos e pela situação política e econômica. Acredito que é importante que tenham isso. E espero que a gente consiga proporcionar isso.
RS: Seu palco é espetacular, vocês aparecem no meio de 3 torres, a uma altura de 5 ou 6 metros. Quem teve essa idéia?
M:Tiramos isso do livro 1984, de George Orwell, cuja influência também foi importante no álbum (The Resistance, 2009). As torres representam os diferentes ministérios que aparecem no livro, e a idéia era que nós ficassemos presos ali dentro, tocaríamos ali dentro, presos nos ministérios, até que conseguiríamos escapar e seguiríamos com o show. Mas o orçamento nos obrigou a reduzir o que pensamos a estes três blocos. Os ministérios de 1984 eram quatro.
RS: E eram pirâmides.
M: Isso será visto em Madrid, na turnê de estádios européia. O que nós mostraremos é uma pirâmide que é como um prédio de escritórios do governo e o palco será incluído nessa estrutura.
RS: Mais sobre a Espanha. Em uma entrevista há um jornal inglês você disse que a pior experiência que teve quando estava em turnê aconeteceu aqui, e que teve algo a ver com uma salsicha.
M: [Risos] Foi na nossa primeira turnê européia, com nosso primeiro álbum, Showbiz. Sou um grande fã dos embutidos curados feitos na Espanha: o presunto, a salsicha, o choriço…Não lembro se foi em Madrid ou em Barcelona, mas depois do show lembro que tinha muita, muita comida. E alguém me deu essa fenomenal salsicha de quase 30 cm e eu comi quase de uma vez. Claro, também estava bebendo muito, estava muito bêbado. Era muito jovem. O caso é que a combinação da bebida com essa salsicha grande foi letal. Caí morto no ônibus da turnê, e na metade da noite acordei e vi que minha cama estava coberta de vômito. E o cheiro era tão ruim que vomitei de novo. E o pior é que eu estava preso, porque o ônibus estava na estrada e não podia parar. Fiquei 3 dias sem poder comer nada, foi horrível. Mas bem, culpemos o álcool e não a salsicha.
RS: Voltou a prová-la?
M: Sim, claro. Mas levei quatro anos.
RS: Você comprou um carro elétrico Tesla, cujo preço é astronômico.
M: Sim
RS: Por que?
M: Para dirigí-lo.
RS: Mas.. porque um Tesla e não um Bentley ou um Rolls?
M: Porque o Tesla liga. Não precisa de gasolina, assim não tenho que ir ao posto de combustível… Bom, vou te dizer a verdade. A Inglaterra passou algumas vezes pela escassez de gasolina, a última há uns 3 ou 4 anos. Os caminhoneiros franceses fizeram greve e impediram que o os caminhões chegassem, e durante seis dias a gasolina não chegou aqui, e os supermercados começaram a ficar sem comida, e o pânico começou a se espalhar. A Inglaterra é muito instável, depende muito da importação e se isso voltar a acontecer e durar um pouco mais… existem artigos que dizem que teríamos 7 dias de margem. Depois não haveria nada, seria o caos, haveria violência. Eu, pelo menos, teria meu carro. E, depois de 7 dias, não haveria mais nenhum carro na estrada e eu adoraria.
RS: Mas você não teria para onde ir. A Inglaterra é uma ilha.
M: Sim, mas eu adoro dirigir!
RS: Em todo caso, uma de suas teorias da conspiração favoritas diz que o petróleo é infinito e que as companhias petrolíferas enganam a humanidade porque, se isso se tornasse conhecido, os preços cairiam.
M: As pessoas tendem a não levar a sério essas teorias, porém, por exemplo, no caso de 11/09, se esquecem de que a história real, a oficial, é uma teoria da conspiração. Não há provas! Existem teorias que são verdadeiras maluquices. Esta, que supõe que as companhias petrolíferas guardam o segredo de que o petróleo é infinito porque querem manter os preços altos… bom, não sei se é verdade, mas me diverte acreditar que sim. Ok, o mais normal é que seja uma fantasia.
RS: Diga-me. como você pode terminar o show no Madison Square Garden, em Nova Iorque, chegar ao camarim e começar a falar sobre o Georgismo.
M: Ah, isso é muito interessante.
RS: Você falava de uma “revolução radical nos direitos de propriedade”.
M: Isso vem de um economista americano chamado Henry George, do final do século XIX. Então houve um
debate sobre como as pessoas deveriam ser tributadas nos EUA, e George chegou com uma idéia revolucionária: só deveria haver um imposto, e esse imposto seria sobre a propriedade da terra. A idéia é que a terra é propriedade da natureza, não é algo fabricado pelo ser humano, portanto não temos o direito de ser proprietários dela. A proposta de George era que se você quer ter um pedaço de terra em
propriedade privada, deve pagar ao resto da população uma compensação. Quando uma companhia petrolífera compra um terreno onde existe petróleo – como por exemplo British Petroleum, que tem grandes porções da Nigéria -, o que está fazendo é privar o resto da população de ter acesso a esse petróleo, que é uma fonte natural, assim, deve pagar a essa população pela exclusividade do acesso. O mesmo se pode aplicar a maioria das pessoas mais ricas do mundo. Se trata de uma idéia revolucionária, mas acredito que é a solução para os problemas econômicos do mundo.
RS: Soa convincente.
M: E é muito óbvio.
RS: Sim, mas impossível.
M: Talvez seja, mas é necessário. O sistemas de grandes corporações tem crescido nos últimos 30 anos de maneira muito intensa, e o que acontece é que as novas gerações, as pessoas jovens, encontram dificuldade em ter alguma propriedade, porque tudo já tem proprietário! Todas as casas ja têm proprietário, todos os terrenos já tem proprietário. A Terra já tem proprietário! Assim, o que um menino jovem pensa: “O que vou fazer? Não há nada para mim!”. As pessoas jovens tem que se dar conta de que esse é o caminho e iniciar uma revolução.
RS: Se um dia o Muse deixar de existir, pela razão que for, você poderia se dedicar a política.
M: Acho que não.
RS: A que se dedicaria então?
M: Seria agricultor, plantaria maconha. Mas não para fazer droga, agora há uma versão legal que se pode utilizar para fazer papel, tecido, comida.. muitas coisas, é uma cultura muito versátil, e requer menos quantidade de água e pesticidas. Quero ter uma plantação de maconha.
