ARTIGOS > NME – The Resistance (07/2009)
NME vai até o estúdio do Muse, no glorioso Lago de Como na Itália, para ouvir seu novo álbum, e encontra a banda prestes a soltar um sombrio e paranóico quinto álbum.
Algumas palavras pra descrever o Lago de Como/Lombardia, norte da Itália: tranquilo, sereno, completamente ‘parad’… Na verdade, risque isso: aqui vão algumas palavras escritas por Percy Bysshe Shelley sobre o mesmo lugar. “Excede tudo que eu já vi em (termos de) beleza. Ele é longo e estreito e tem a aparência de um poderoso rio contornado por montanhas e florestas.” (Esse cara sempre teve jeito com as palavras.) Além disso, rodeando um dos maiores e mais profundos lagos de toda a Europa, há algumas das mais incríveis casas que você imaginaria ver. George Clooney tem uma, que ele emprestou para David Beckham no começo do ano. Em outra (casa), James Bond se recuperou (e, obviamente, trepou) em Cassino Royale; enquanto, em outra, Darth Vader – Anakin, para a mãe dele – sentia-se amarrado à sua paixãozinha de infância em segredo. Ó, sim, e, em outra, um pouco longe do estúdio onde ele e sua banda acabaram de gravar o quinto álbum, mora um garoto chamado Matt Bellamy.
Algumas palavras para descrever “The Resistance”, quinto, primeiro pós-Wembley, álbum chocante do Muse, do fundo de uma audição em volume bem alto numa daquelas tais mesa de mixagem de estúdio: romântico, mesmo que coberto de claustrofobia-do-século-21 – uma gravação com coisas na mente. Na música de abertura, “Uprising”, Matt canta sob uma melodia eletro-glam dançante, estilo Marilyn Manson, sobre como a “paranóia está no controle” e como “os fat cats deveriam sofrer um ataque cardíaco”(1) e como “eles nos empurram drogas para nos manter confinados”. Na verdade, o mesmo “eles” reaparece na segunda faixa, a que dá o nome ao álbum – Matt se perguntando se “eles” irão “achar nosso esconderijo” e opinando, ao som de bateria tribal e melodia de piano no estilo “Starlight”, que “eles” também “não pararão de nos rebaixar”(2). Em algum lugar, há uma conversa sobre “você e eu andamos na linha/para sermos punidos por crimes sem provas”(3) (United States of Eurasia), e como “você aprende pelos números/perdendo a maravilha da vida” (Guiding Light) e, mais explicitamente, como esse novo residente do Lago Como quer “prosseguir além de um protesto pacífico” para que ele possa “falar numa língua que ‘eles’ – ‘eles’ de novo – entenderão” (Unnatural Selection). O riff “spidery”(4) de “MK Ultra” chega ao ápice com conversas de “trocar amor e felicidade por medo”, e a música de encerramento, “Exogenesis: Symphony” – que, juntando as três partes, tem mais de 12 minutos -, pinta um quadro similar, com cordas gravadas em Milão, do “limite de todos os nossos medos”. Um lugar assustador, portanto, aquele mundo do lado de fora da janela.
“Assistir ao jornal foi uma grande influência nesse álbum”, admite Matt Bellamy, sentado no “lounge” depois da nossa audição. “Você sabe, só fazendo lavagem cerebral em mim mesmo com as notícias da BBC, e também percebendo como quantas lavagens cerebrais estão saindo dessas coisas. Há, definitivamente, um sentimento de querer mudar a Inglaterra, de como tudo está indo de maneira ultrapassada. Tudo isso foi saindo durante a produção desse álbum. Eu acho que na própria Inglaterra as pessoas têm acordado para o fato de que nós não temos mais uma democracia e que nosso sistema parlamentar é completamente atrasado e que a mídia de notícias está particularmente fodida. Morar na Inglaterra pelos últimos cinco ou dez anos foi uma grande experiência, porque nós sentimos como se estivéssemos completamente sem força; eu tenho notado mais isso do que outros países. A grande crise dos bancos tem sido bem ruim na Inglaterra, e toda a coisa do MP, e também que fomos levados a uma guerra, que nós não concordamos, por baixo dos panos dos EUA. Há um sentimento de ser inglês de uns anos atrás de ‘inferno, nós não temos nenhum controle sobre a nossa vida’”.
É, é, ele não está morando na Inglaterra atualmente. Mas…
“Isso vem de uma pessoa que se sente inglês de coração, que não está na Inglaterra e que está quase mergulhando demais em notícias da Inglaterra, porque eles sentem como se estivessem perdendo o jeito. Ao mesmo tempo, isso te dá uma visão objetiva do que realmente está acontecendo lá.”
Será que talvez ele sinta um dever, como uma estrela de rock, de refletir tudo isso?
“Não, eu não acho que tenho um dever, nem me sinto inclinado a isso. Eu somente estava interessado nessas coisas, e a música reflete o que o seu feitor é. Se eu fosse mais interessado em fazer outras coisas e tivesse um estilo de vida completamente diferente, tenho certeza de que isso estaria na música. Depende de como você reage. Você pode levar as coisas de um modo leve se você quiser. Tipo, toda vez que os vocais entram em ‘United States of Eurasia’, sempre dou risada pra caralho, porque é tão chocante, como uma cena de Highlander, então é muito engraçado para mim. E tem outras coisas, como a batida glam-rock em ‘Uprising’. Para mim, há um lado leve na banda, que está ali. Claro que há algumas coisas pesadas também, mas gosto de pensar que nós misturamos o suficiente para as pessoas não saírem de lá cansadas. Eu quero que as pessoas saiam se sentindo excitadas e comovidas.”
Mas parece que há alguns temas recorrentes como medo, alienação e esse tipo de coisa – você diz “a polícia rígida”. Há esse verso em “Undisclosed Desires” onde você canta sobre “prosseguir além de protestos pacíficos”…
“É. Esse é o momento crítico com relação à resistência – como vamos mudar algo? Acho que coloquei à frente a ideia, no álbum, de que amor e protestos pacíficos são a melhor forma, mas não dá pra não pensar que, às vezes, não é o bastante; existe uma linha estreita, e estou andando nesta linha estreita. Você poderia se enterrar na ideia de sua namorada, ou de alguém que você ama, e esquecer todo o resto, ou você poderia usar isso como um método de protesto – num sentido Gandhi de que uma resistência pacífica seria a melhor resistência. Mas daí existe a ideia de que chutar janelas de lojas ajuda também! O álbum está pendendo entre todos esses diferentes tipos de resistência.”
Perguntei aos outros dois membros do Muse – Matt, Dom e Chris serão todos entrevistados separadamente hoje – como eles se sentem sobre essa direção politizada, e todos estão inclinados a não interferir na visão do cantor. “Com todas as letras e tal, eu e Dom não nos envolvemos”, diz Chris Wolstenholme, o alto e cortês baixista. “Normalmente, a primeira vez que ouço as letras é quando Matt entra e diz ‘Está pronto para fazer o backing vocal?’. Mas não é algo que eu e Dom já tenhamos nos envolvido muito. Porque é algo bem pessoal e é a única coisa que eu acho que ninguém tem o direito de opinar. Quando se trata de partes de guitarra, partes de baixo, partes de bateria, então todo mundo é bem aberto para discutir suas ideias sobre como devemos tocar as coisas, mas, quando se trata das letras, é algo totalmente diferente tudo junto e algo que eu sempre deixei para o Matt.
Dominic Howard, feliz e cortês baterista, concorda: “Muitas das coisas sobre as quais o Matt canta são coisas que nós, geralmente, conversamos durante o curso do álbum, de qualquer forma. Mas eu e Chris nunca realmente escutamos as letras. Ou até mesmo qualquer melodia de voz. Digo, às vezes, fazemos umas ideias soltas, mas, desde o começo da banda, tipo há 16 anos atrás ou algo assim, nós nunca fizemos um ensaio com Matt cantando. Nós só ouvimos ele cantar quando fazemos um show ou gravamos algum pedaço de música. Então é tudo meio novo, sabe?”.
Uma coisa que todos vão se entusiasmar sobre, alguma hora, é A Música. Se tratando de Muse (e Muse sem um produtor e nada menos) seria exagerado. Mas “The Resistance” é, sem questionar, até maior, até mais massivo e exagerado que qualquer coisa que eles já fizeram anteriormente.
“Esse disco me lembra ‘Origin of Symmetry’ de alguma forma, porque no ‘Origin’ foi quando nós realmente nos soltamos sem nenhum medo”, Matt confessa. “Acho que nós fizemos o mesmo neste disco, é algo que precisávamos fazer, e foi bom trabalhar sem um produtor porque pensamos que poderíamos encontrar problemas. Nós tivemos, sim, vários problemas, brigas e discussões entre a banda, mas tomamos decisões bem rapidamente; nós estamos mais decididos do que estávamos no último álbum.”
“Não há limite quando estamos em estúdio, não há nada nos segurando particularmente quando não temos um produtor”, continua Dom. Nós simplesmente nos soltamos. Nós nunca sentimos como se tivéssemos barreiras, então, às vezes, quando fazemos algo um pouco complexo, ou um pouco estranho, ou um pouco engraçado, ou um pouco exagerado, sempre comentamos: ‘Hahaha, até que tá bom, não tá? É até engraçado!’. Mas nós nunca quisemos nos segurar, não há razão para termos quaisquer restrições. ou simplesmente não nos sentimos assim, de qualquer forma.”
“Sempre gostamos de levar as coisas até o limite”, conclui Chris, pelo menos no começo. “Mas, algumas vezes, quando estamos no estúdio, as coisas vão tão longe que nós meio que temos que trazê-las de volta um pouco. É fácil ir longe demais algumas vezes e simplesmente fazer tudo parecer uma piada. Mas eu acho legal ter coisas assim, de vez em quando, porque faz as pessoas perceberem que não estamos sérios até a morte o tempo todo. Acho que acontece aquela falta de concepção conosco em que todos acham que somos muito sérios e sentamos por aí e conversamos sobre política e sobre o estado do mundo hoje. E nós não fazemos isso. Nós estamos cientes dessas coisas e elas nos chateiam, mas não somos assim como as pessoas devem pensar que somos, e eu acho que, quando algumas pessoas ouvem o álbum, algumas das letras são bem sérias, mas pedaços delas são mais descontraídas. E algumas delas fazem, de fato, você rir bastante.
Certamente, há partes engraçadas, um tanto gloriosas e exageradas. A parte do vocal “quero andar de bicicleta” na ponte de United States of Eurasia sendo algo como um pico (Dom: “achamos aquilo bom demais para tirar, então a deixamos”). Porém, em algum lugar, a aventura musical está muito mais em “Undisclosed Desires”.
“Essa foi uma das primeiras músicas que fiz em que não toco nada”, diz Matt. “Eu só canto. São partes de cordas que foram editadas e adaptadas em rítmo com uma batida de bateria eletrônica e Chris tocando baixo. Então é uma música em que todos fazemos o oposto do que normalmente fazemos. Dom fez bateria eletrônica ao invés de bateria acústica, Chris tocou no estilo mais constrangedor de se tocar, e eu simplesmente não fiz nada. É como a música anti-Muse.”
A mais surpreendente e exagerada de todas, no entanto, é a faixa de encerramento dividida em três partes “Exogenesis: Symphony”, uma obra clássica que foi construída por Matt durante o curso de muitos anos, mas que só agora ele teve tempo, devido ao próprio estúdio do Muse, de concretizá-la.
Chris: “Você sempre pode tirar a banda da jogada e só ter a parte orquestral e ainda assim será lindo. Eu só acho que é uma incrível obra musical e que nós nunca fizemos algo assim antes, onde você tem todas essas músicas que acontecem em movimentos diferentes. A orquestra foi a parte principal na música e a banda foi mais um plano de fundo. As cordas estavam à frente da música. É boa pra caralho.”
Dom: “Essa música também é uma verdadeira jornada. É meio que… você não consegue ouvir muito o que o Matt está cantando na primeira parte, mas a música inteira é sobre deixar o mundo destrutivo que criamos, deixá-lo para trás e ir povoar outro lugar no universo. Então é, de qualquer forma, uma grande jornada. É uma grande jornada cinematográfica também.”
E a mais decorada “Melhor Banda Ao Vivo” do mundo estará disposta a reproduzir esse espetáculo em estádios e arenas?
“Bom”, diz Matt, “nós vamos tentar!”.
Algumas palavras para descrever o “The Resistance”: um gigantesco salto à frente para uma banda que muitos devem ter sentido que não poderia mais dar saltos gigantescos, especialmente depois daqueles dois shows no Wembley que pareceram tanto com um pináculo. Um álbum que se move em novos pastos musicais, com investidas em R&B e clássico, mas que retém a força desse lugar único em que se encontram as bandas britânicas – os grandes riffs, vocais operáticos, a disposição, o incansável desejo de ser mais pretensioso e exuberante. Um disco estúpido, que vai fazer todo mundo que o ouve – e não só, de novo, os criadores – rir em alguns pontos, mas do modo em que discos de rock divertidos deveriam fazê-lo rir. Um disco político, embora um disco que busca o inespecífico – é mais sobre plantar a semente da discórdia na mente das pessoas do que determinar alguma solução. Então, Matthew, em suas palavras: “The Resistance” é um álbum conceituado?
“Não, porque um álbum conceituado implica que você possui uma narrativa musical pré-planejada e não foi assim. Para mim, houveram âncoras líricas pré-planejadas que, se eu estivesse em dúvida, eu poderia me basear, mas não era necessariamente uma coisa narrativa.”
Mas você concorda que há temas rolando no disco?
“Acho que se você tivesse que comprimir para um tema, seria a ideia de que há um certo romance acontecendo nisso, chame de Inglaterra contemporânea, com todas as merdas acontecendo em todos os lugares – você só pensa consigo mesmo: “É um monte de merda, não é?”. Então, se eu estivesse em dúvida com relação a onde ir com certa letra ou canção, eu voltaria a esses pensamentos iniciais. Como o ’1984’ de Orwell. Eu li o livro quando estava na escola e só entendi o lado político dele, mas eu li outra vez e o lado romântico envolvido me comoveu – essa ideia de que o amor era o único lugar onde havia alguma liberdade de toda a merda. O ato do amor pode ser um ato político nesse tipo de cenário, como o único lugar onde o estado não pode invadir sua privacidade. Essa história de amor me tocou mais do que o significado político geral do livro. Então eu diria que essa foi uma peça fundamental do álbum, sério, a história de amor nesse livro.”
Algumas palavras finais sobre o Muse: promissores, ambiciosos, conscientes, engraçados, adoráveis, pessoas sortudas que amam o que fazem, talvez afirmando o maldito óbvio às vezes, mas afirmando mais alto, com mais orgulho e mais poderosamente que qualquer pessoa no presente. E com seu quinto álbum, prestes a ficar mais massivo do que eles já são.
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Notas:
(1): “the fat cats should have a heart attack”, no original. “Fat cats” são os famosos “corruptos”, pessoas que usam do dinheiro da sociedade pra encher suas barrigas.
(2): “(they) won’t stop bringing us down”, no original.
(3): “you and me fall in line/to be punished for unproven crimes”, no original.
(4): “spidery riffs”, no orginal. Riffs longos, constantes e de palhetamento alternado normalmente usados por bandas de metal. (Se essa informação estiver errada, culpem Belle e John, carinha da comunidade.)
