bolinha ARTIGOS > NME (2007)

Tradução de Isabelle Brasil

 

Depois de ter ganho nosso primeiro prêmio da NME, nosso avião particular pegou fogo.
Daí você pensa: “É, nós trilhamos um longo caminho!” A primeira vez que fui numa premiação da NME foi em 2000, quando nós ganhamos o prêmio de Melhor Banda Revelação, mas eu me lembro melhor do que aconteceu só depois da premiação, vagamente me lembro da cerimônia. Nós tivemos que ir direto para um show nesse avião pequeno que nós temos, e um dos motores pegaram fogo na hora em que estávamos pousando. Sorte nossa que nada explodiu. Nós estávamos todos sentados segurando prêmio NME quando o motor pegou fogo, e acho que esse foi o momento mais rock’n’roll na nossa carreira. Graças a [alguma coisa] o episódio não me traumatizou a ponto de me deixar com pânico de aviões…ou prêmios. (risos).

Eu queria muito ir à cerimônia da premiação NME esse ano, mas nós estamos no outro lado do mundo, em Hong Kong.
A premiação da NME é uma das minhas favoritas. É sempre um evento mais discreto que muitos outros que acontecem. É um ambiente bastante relaxante. Uma pena nós não podermos estar lá. É sempre um bom motivo para dar risadas. Todas as bandas que vão ao evento já estão bêbadas o bastante quando tudo começa. É sempre bem divertido.

Existem certas bandas que seguem o conceito de fazer música baseada em qualquer coisa menos a própria música.
Eu às vezes encontro esse tipo de gente. Não vou dar nomes, mas você acaba pensando que essas pessoas vivem num mundo diferente do seu, sabe? Até mesmo quando algumas dessas bandas estão no mesmo nível que nós estamos. Muse não é uma banda assim. Nós não somos compradores inveterados de revistas fúteis. Eu não me sinto uma celebridade, muito pelo contrário. Não sei muito bem como definir o termo ‘celebridade’, mas acho que é quando você torna famoso pela imagem, ou presença na televisão, ou por aparições nas capas de revistas de prestígio. Não tem muito a ver com talento. Para nós, é exatamente o contrário. Nós somos apenas conhecidos por causa da música. Por isso não somos vítimas de perseguições frenéticas nas ruas, especulações sobre nossas vidas pessoais, etc. Quando você conhece pessoas, você deve julgá-las pelo o que elas realmente são, e não pelo o que a mídia transparece a respeito delas.

Se eu pudesse escolher uma maneira de morrer, escolheria morrer afogado.
Ouvi dizer que é bem relaxante. Aparentemente você passa pela fase de pânico por alguns segundos antes dos pulmões se encherem de água, mas, uma vez que esse processo termina você só relaxa. Você senta no fundo “Pó, que massa!” e espera cair no sono eterno e profundo aos poucos. Parece um jeito bem calmo de morrer. Você flutua numa boa, como se fosse uma viagem. Eu já pratiquei scuba-diving, então sei que gosto bastante de estar em alto mar com os peixes. Quem me contou que morrer afogado é relaxante? Minha mãe. Acho que ela caiu na água acidentalmente e quase se afogou. Daí ela me disse: “Não se preocupe, filho, essa é o melhor jeito de morrer”. Estranho, não?!

Aceitação da morte é algo que parece estar extinto na vida moderna.
Todo mundo acha que a vida é muito preciosa – Bom, pelo menos todos acham que suas vidas são muito preciosas. Todo o esforço que as pessoas fazem para serem saudáveis só vai estender o tempo que eles vão ficar numa casa de idosos. Num asilo. Esses esforços não necessariamente significam melhora de vida. Não acho que as pessoas deviam se preocupar tanto em prolongar a vida desse jeito. Todo mundo parece temer a morte tão desesperadamente no momento, e eu acho que sinceramente isso é muito triste. Tentar prolongar a vida é quase o mesmo que acreditar que você é tão importante que deve viver para sempre.

Nós temos músicas que só devem ser tocadas para um público de no mínimo 10,000 pessoas.
Algumas de nossas músicas se saem melhor em lugares espaçosos, largos, porque elas se beneficiam da acústica do local. Take A Bow não funciona em shows pequenos. Ela não prevalece. Não ligo que os nossos shows estão ficando cada vez maiores. Do nosso ponto de vista no palco, não existe muita diferença entre um público de 5,000 e 20,000 pessoas. Tudo se transforma num grande borrão, depois das primeiras 5,000 pessoas. Mas a maioria das pessoas que vão aos nossos shows parece acreditar que nossas músicas ficam melhores tocadas em Arenas, e é por isso que nós nos sentimos a vontade tocando nesse tipo de ambiente. Acho que outras bandas sofrem um pouco nesse tipo de lugar. Lembro que ouvi dizer que Nirvana perdeu alguma coisa quando tocou em lugares grandes. Nesse momento eu estou bastante ansioso para tocar no estádio do Wembley. Será nosso primeiro show em um estádio esportivo, e significa muito para nós o fato de ser na Inglaterra, que é o lugar onde nós fazemos os melhores shows. Não foi assim quando nós começamos a carreira da banda, logo nos primeiros álbuns, mas agora sabemos que a Inglaterra é o lugar onde nós nos superamos.

Nós vemos todos os tipos de pessoas indo aos nossos shows, desde metaleiros hardcores até o povo que curte mais música pop e indie.
Conhecendo e conversando com pessoas que normalmente vão aos shows, você acaba tendo a impressão de que elas são do tipo que nunca escutariam o tipo de música que nós fazemos. Existem os metaleiros que chegam e falam que não escutam esse tipo de rock levezinho, e existem os indies e pops que normalmente falariam que não escutam esse tipo de rock pesado. Claro que nós temos vários fãs frenéticos e obcecados, mas também temos aquele tipo de fã que para ele nós somos a única banda desse estilo que ele ouve. Como se fôssemos o segredinho dele.

Definitivamente existem muitas pessoas hoje em dia que se transformam em “filhos da televisão”.
A tv se torna os pais dessas pessoas. Elas passam mais tempo assistindo a tv, ou jogando jogos de computador e caçando estímulos emoionais dessas coisas do que passam com suas próprias famílias. Muitas pessoas estão presas dentro dessa realidade, que é um lugar perigoso e preocupante por ser tão vazio e fútil. Existem muitas pessoas assim em LA.

Algumas músicas precisam sofrer um colapso para dar certo.
Quando eu compus “Invincible”, a letra sofreu várias mudanças no processo de composição até ficar completamente pronta. Mas originalmente a idéia não era compor uma canção de amor. Havia partes da letra que eram muito mais politicamente direcionadas. Era mais uma ‘chamada socialista’ que uma música sobre amor – “Vamos, vamos todos nos juntar, vamos destruir o Parlamento” – Era tipo algo V de Vendetta. Mas então, por alguma razão eu resolvi transformá-la numa canção de amor. O problema é que eu não me senti muito bem com isso, então a letra acabou pegando um pouco das duas essências. Política e Amor. Não era nem uma música completamente politizada, nem uma música completamente romântica. É o tipo de música na qual você pode identificar vários temas. Eu apenas canto sobre mudanças e como eu gostaria que elas acontecessem, e que deveriam ser feitas em conjunto. Eu sinto que mudanças são bem necessárias.

É vergonhoso, mas a banda do meu pai gravou a música favorita de Margaret Thatcher e tocou com Rolf Harris.
Meu pai foi da banda “The Tornados”, e a música se chamava “Telstar”. Eles gravaram essa música com o produtor Joe Meek. Meu pai me contou várias histórias sobre ter trabalhado com ele. Ele, Joe Meek, era um completo maluco. Era bem temperamental e de lua, e bem violento com os caras da banda (The Tornados). Certo dia ele simplesmente tacou um gravador neles enquanto eles desciam as escadas. O gravador acertou o baixista e o fez desmaiar. Acho que meu pai é o responsável por ter colocado idéias de turnês na minha cabeça. Ele me contava coisas que ele costumava fazer em turnês, e aquilo tudo parecia muito estranho. Isso aconteceu bem antes de eu nascer, mas durante a minha infância, eu adorava ouvir sobre as turnês da banda dele com o Rolf Harris, os Beatles, e todas as histórias que ele acumulava com o tempo. Era estranho naquela época, porque tudo era muito diferente. Você não podia sair em turnê tocando pelo mundo inteiro como pode hoje, então as experiências dele eram bem mais curtas e breves.

Durante os meus 13 anos as minhas tendências eram mais voltadas para a carreira musical clássica.
Até assistir a um show do Rage Against The Machine no Reading Festival. Depois disso eu decidir seguir a linha do rock’n’roll. Acho que na época em que a minha prioridade era me tornar um bom pianista, eu não tinha muita noção do que era ter uma banda. Mas consegui trazer as minhas influências musicais de quando era garoto para o Muse. Eu estou descobrindo caminhos de fazer estilos diferentes interagirem com o rock. De vez em quando eu me pego ouvindo música clássica e penso “Eu gostaria de ter sido bom o bastante para ter sucesso nesse mundo da música clássica”. Mas eu deixei essa oportunidade passar. Eu teria de ter estudado muito mais durante a minha adolescência para poder ter conseguido, mas eu estava muito ocupado fazendo coisas que não devia.

Usar os “magic mushrooms” em Devon foi bom para a banda.
Em Devon ninguém nunca nos disse que não éramos descolados ou coisa parecida. Não tínhamos muita referencia de fora que pudesse nos guiar sobre o certo e o errado em relação a fazer música, e eu acho que isso foi bastante positivo para nós. Nós crescemos largados, apreciando cogumelos e investindo no nosso próprio mundo. Isso durou até o dia em que nós tivemos a oportunidade de viajar para fora e perceber que nosso estilo de vida era muito esquisito.

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