bolinha ARTIGOS > Hot Press (06/2008)

Tradução por Ivne Souza

 

MUSEFLASH! É uma tarde super quente de junho em Lisboa e, nos arredores luxuosos do cinco-estrelas Lapa Palace Hotel, dois dos membros do trio mega-selling britânico de rock alternativo MUSE estão definitivamente aparentando pálidos e de ressaca.

“Nos últimos dias, nós estivemos ensaiando, mas não víamos a equipe ou nosso empresário de turnê há um tempo, então ontem à noite nos juntamos e tomamos uns drinks”, o cantor de cabelos negros Matthew Bellamy confessa. “Então não estou me sentindo muito bem hoje, pra ser honesto.”

Enquanto Bellamy e o baterista Dominic Howard estavam bebendo mais do que deveriam, o cortês baixista Christopher Wolstenholme passou sua noite envolvido em atividades que eram bem mais adequadas a um rockstar. Não, ele não estava puxando carreiras da parte superior de uma supermodel (ele é casado e tem três filhos). Ao invés disso, ele estava enrolado confortavelmente em sua cama assistindo a um filme. Sobre um rockstar.

“Eu assisti àquele filme horrível com Mark Whalberg”, ele ri. “Como é o nome? Ah sim, ‘Rockstar’. Eu não conseguia dormir e já eram quase duas da manhã. Era tão ruim que eu tive que assistir até o final só pelo propósito da comédia. O filme era muito estereotipado. Havia uma cena na qual ele faz seu primeiro show e sua esposa acorda na cama com dois caras e ele vai até a sala e há aquele monte de mulheres peladas por todo lado. Isso não acontece, cara!”

Ele balança a cabeça e sorri, antes de esclarecer: “Pelo menos não depois de seu primeiro show!”

Muse é uma banda muito badaladeira?
“Na verdade não”, ele diz. “Eu acho que nós tivemos o período da farra nos primeiros álbuns. Aquele tipo de período de transição entre estar em Teignmouth o tempo todo, e assinar com uma gravadora ganhar um pouco de dinheiro e estar em turnês o tempo todo. Acho que nós meio que piramos um pouco. Não de um jeito ruim. Especialmente durante o período do Origin of Symmetry, com certeza havia muitas festas e muito consumo de álcool e todas aquelas coisas.”

Mais ou menos em 8 horas, Muse estará tocando o que será apenas seu quinto show de 2008 (Atualizando: eles tocaram dois shows na África do Sul, um em Dubai e um no Royal Albert Hall) para um público de 100.000 fãs portugueses no festival Rock in Rio da cidade, mas agora eles têm uma hora de deveres à mídia. Não há nenhum álbum novo, nem nada, então não é nada muito pesado. Há uma equipe da MTV Européia aqui filmando um especial no festival. E como a banda vai tocar no Marlay Park em agosto, eles gentilmente concordaram em falar com a Hot Press também.

Apesar de terem uma imagem quase obscura e sombria, e serem notavelmente tímidos para com a mídia, hoje eles aparentam caras agradáveis, despretensiosos e calmos de Devon. Formada quando eles ainda eram garotos na pequena cidade de Teignmouth, Muse existe há 14 anos (apesar de serem chamados Rocket Baby Dolls antes). Alguns álbuns, milhões de vendas e milhas incontáveis depois, eles continuam mais fortes que nunca. Manter o sucesso não os mudou. Na verdade, eles mal acreditam que estão por aí por tanto tempo.

“É, completaremos 10 anos em setembro”, diz Dominic. “Bom, isso da data de lançamento do Showbiz, mas na verdade estamos juntos desde 1994. É incrível. Nos saímos bem. Tivemos uma boa trajetória até agora.”

“Não parece que foi há muito tempo que estávamos tocando para 30 pessoas no Carven Club em Exeter.” Chris ri. “Foi há uns 10 ou 12 anos atrás, mas não parece isso tudo mesmo. Fazendo turnês, a vida passa tão rápido.”

Por falar em rápido, nosso tempo é razoavelmente apertado e eles ainda precisam cruzar a cidade para fazer a passagem de som. O empresário de turnê deles sugere revezar as entrevistas. Matt vai sair para comer algo, Chris vai fazer uma entrevista para a MTV e Dominic vai falar comigo. Depois de 15 minutos, Matt vai falar comigo, Chris vai falar com a MTV e Dominic vai comer algo. Depois vamos mudar tudo de novo. Parece ser um plano.

Dominic e eu nos sentamos na varanda e vamos direto aos negócios. O baterista está tão magro quanto uma vara e se escondendo atrás de um belo par de Ray Bans. No entanto, enquanto ele está, obviamente, levemente de ressaca, sua pele pálida pode ser mais pelo fato de ele ter passado a maior parte dos últimos dias em espaço subterrâneo no novíssimo estúdio italiano da banda.

“Nós temos um estúdio perto do lago de Como e estivemos ensaiando e trabalhando em novos materiais. Mas nós acabamos de construí-lo, na verdade – tudo está começando a funcionar agora, e estamos começando a trabalhar nele. É um bom lugar para começar todo o processo criativo para o álbum. É muito lindo. Tipo, você está num estúdio bem escuro – subterrâneo – daí você sai nos intervalos e está olhando para o lago e para as montanhas, respirando fundo aquele ar puro e então simplesmente… relaxa.”

O novo estúdio fica próximo à casa de Matt no lago, a qual ele divide com a namorada italiana há alguns anos. Chris ainda mora em Devon com sua esposa e filhos, enquanto Dominic está em Londres. Essa distância dificulta as coisas?
“Na verdade não, porque nós estamos sempre juntos. Nós ocasionalmente passamos algumas semanas separados, mas se você for olhar a porcentagem de tempo que estamos juntos em um ano, provavelmente é de 90%. Então algumas semanas aqui e ali não faz mal. E estarmos morando em lugares diferentes não é grande coisa. Quanto mais você viaja, mais o mundo fica menor. Então pegar um avião para a Itália dá no mesmo de ir dirigindo até Devon. Então não há problema algum. Não há problemas com relação à distância, com relação à criação ou qualquer outra coisa.”

Muse passou muita parte dos últimos dois anos viajando incessantemente fazendo as turnês bombásticas, quase clássicas e por muitas vezes brilhantes de 2006 para o Black Holes & Revelations. Apesar de estar bem cedo para o próximo álbum, ele diz que é ótimo finalmente estar de volta ao estúdio de gravação experimentando sintetizadores esquisitos e percussões.

“É uma época empolgante. Nós estamos acabando de voltar para isso tudo. Você fica muito envolvido no lado criativo das coisas, tocando por aí com instrumentos estranhos e coisas que você normalmente não usa, e então você sai em turnê por dois anos e esquece aquilo tudo! É legal voltar pra lá de novo.”

O que é mais importante para você – as turnês ou os albums?
“Ah, é tudo bom, eu acho.” Ele balança os ombros rindo. “Eles, obviamente, são coisas radicalmente diferentes e você sente algo bem diferente de cada um. Mas são igualmente importantes. Você precisa criar para manter sua mente e habilidades e a banda seguindo em frente – e, obviamente, isso precisa acontecer. Mas você sente tanta realização ao tocar essas músicas no mundo inteiro em países diferentes para pessoas diferentes. É incrível. Então para mim eles são muito, muito iguais e eu não tenho preferência.”

“Nós somos meio sortudos como uma banda porque todos gostamos de fazer turnês”, ele continua. “Nós conhecemos um monte de bandas que simplesmente não agüentam isso e simplesmente não o fazem. Justo, mas nós realmente gostamos. Nós ainda estamos meio que tocando agora. Não muito, veja. Mas é bom fazer alguns shows e não simplesmente hibernar durante um ano.”

Estamos nos encontrando há exatamente uma semana depois de Jim Corr dar uma entrevista controversa para o “Last Word” em que ele falou sobre suas suspeitas de que o ataque de 9/11 havia sido orquestrado por elementos ligados à administração de Bush. Como algumas das letras mais apocalípticas do Muse (sem contar com várias de suas entrevistas) podem sugerir, a banda é notavelmente interessada em teorias da conspiração.

Quando falo com Dominic sobre a teoria de Corr, ele sabiamente faz sinal de sim com a cabeça. “Para nós, aquilo pareceu bem acreditável – ou para mim, pelo menos. Parece que existiram tantos fatos brutais sobre a forma em que a área de epicentro…a forma em que os prédios vieram abaixo, e a velocidade em que isso aconteceu, e como os outros prédios acabaram desabando também. Sem contar com outros fatos sobre os destroços dos aviões na Pensilvânia e no Pentágono.”

Então você está dizendo…?
“É tudo mentira! Você só precisa olhar para ver que é uma piada completa. É muito ruim o fato dos Estados Unidos colocarem esse tipo de besteira nos olhos do público, mas acho que muitas pessoas acreditaram. Eles estavam passando por um período vulnerável, por isso estavam abertos a acreditar em qualquer coisa do tipo. É ruim.”

É esse tipo de assunto que a banda passa as horas discutindo no ônibus da turnê?
“Bom, não tanto o 9/11 – Aquilo foi só algo que aconteceu há vários anos atrás – Mas claro, nós falamos sobre todo o tipo de coisa. Você está curtindo com seus amigos, você conversa, não é?”

Você acha que músicos famosos têm responsabilidade de falar sobre assuntos políticos?
“Na verdade, não”, ele diz. “Eu não acho que você tem a responsabilidade de falar sobre qualquer coisa. Eu sei que alguns músicos falam. Mas se você tem uma banda, ou se você é músico ou artista, você está em cima de algum tipo de pedestal e possui a habilidade de dizer o que pensa sobre qualquer coisa em público. E se você é interessado em política, isso pode transparecer em sua música ou na maneira em que você fala. Mas com certeza não é uma responsabilidade que nós levamos. Acho que nós só falamos sobre coisas que são relevantes para nossa música ou sobre como nos sentimos. E tenho certeza que falamos sobre todos os tipos de coisas ridículas que fizemos no passado. Haha”

A conversa se volta para a indústria musical e os novos métodos de distribuição da música. Com Ash anunciando que eles abandonaram totalmente o formato de álbum, e Radiohead dando suas coisas de graça, o Muse tem algum plano radical de distribuição para a próxima etapa?
“Nós ainda não discutimos isso”, ele afirma. “Simplesmente sinto que vivemos em dias em que as possibilidades estão abertas. Tem se tornado bem mais aberto para artistas terem idéias diferentes sobre como lançar sua música, do que simplesmente usar o formato tradicional de lançar CD. Mas não somos contra a idéia de lançar álbuns como um grupo de músicas juntas – de jeito nenhum – Se há um propósito em as músicas estarem ali juntas, então precisam estar juntas. Se as músicas combinam, ou se é uma obra conceitual ou se elas simplesmente soam legal juntas, então você deve lançá-las juntas. Eu acho que fica totalmente em aberto. Digo, nós ainda não decidimos exatamente nada do que vamos fazer. A música vai ditar como funcionará. Mas acho que o caminho tradicional de gravadoras no lançamento de discos foi provado estar acabado. Tem que estar, porque elas estão todas quebradas! Haha Mas com certeza há uma certa liberdade para os artistas de hoje em dia, o que é muito bom. Claro, é mais fácil estabilizar bandas que possuem um bom número de fãs. Mas são bons tempos, não acho que seja o fim da indústria musical. As portas estão se abrindo para muito mais liberdade de criação no mundo da música.”

Considerando que todos moram separados, algum de vocês está planejando algum projeto musical paralelo?
“Ainda não. Acho que nós ainda temos uma ambição saudável entre nós três para descobrir mais, criar mais música, evoluir e mudar e tentar ser melhor no que fazemos. Ainda temos muita aspiração para fazer isso. Tenho uma sensação muito positiva. Há muitas coisas que nós ainda sentimos que falta conseguir. Tipo uma turnê mundial tocando apenas em estádios. Até conseguirmos isso…” Ele ri de novo.

A próxima pergunta da Hot Press é puramente um trocadilho. Nick Cave disse uma vez que nunca permitiria que sua música tocasse em comerciais, pois iria ofender a sua “musa” (muse). O Muse permite que sua música seja tocada em comerciais?
“Não muito”, ele diz balançando os ombros. “Algumas coisas escapam acidentalmente ou são usadas sem seu consentimento. Nós sempre colocamos um limite em produtos de supermercado. Qualquer coisa que você pode comprar em lojas assim. Sabe, não tem nada a ver com música. Nescafé usou nossa versão de ‘Feeling Good’ uma vez – nós os processamos, eles nos pagaram e nós demos o dinheiro ao Oxfam (grupo que luta contra pobreza). Esse tipo de coisa definitivamente barateia a música. Claro que depende do que se trata.”

Qual seria seu produto propaganda ideal?
“Ahm…viagem espacial”, ele sorri.

Isso dificilmente me surpreende. Há muitos temas apocalípticos e de ficção científica dentro do trabalho do Muse. Dominic diz nunca ter ouvido sobre o autor distopiano e paranóico Philip K. Dick (apesar de ter visto “O caçador de andróides”), mas ele menciona Arthur C. Clarke como sendo a maior influência nas letras de Matt. “Ah, há um elemento de outro mundo que está sempre por aí.”

Considerando que “Knights of Cydonia” foi intitulada devido a uma região no hemisfério norte de Marte, eu fiquei imaginando, ele já viu as novas imagens extremamente nítidas que acabaram de chegar da sonda espacial da NASA da superfície do planeta?
“Não, eu não as vi”, aparentando interessado. “Eu devo tê-las deixado passar, Matt você ouviu algo sobre isso? Imagens de Marte?”

Matt Bellamy acabou de chegar à mesa. “Eu as vi, sim”, ele murmura baixinho. “Elas eram muito legais!”

Obviamente é hora da troca de entrevistas. Eu dou adieu ao baterista, e Matt cai sobre a cadeira ainda quente. Ele é um tipo de pessoa astuta e distraída de se entrevistar – raramente olhando diretamente nos olhos (apesar de, para ser justo, deve ser por causa do brilho intenso). Ele fala bem rápido e em explosões de intensidade, e pontua quase todas as pausas em todas as frases com as palavras “Eu acho…” e “Eu imagino…”. Seus dentes são absolutamente horríveis para um rock star milionário, mas nós o perdoamos por isso.

Ele completará 30 anos depois de amanhã, será que vai ser um grande marco?
“É, eu acho sim”, ele diz. “É o final dos meus vinte e poucos anos, não é? Mas alguém me disse um dia desses que seus trinta são seus novos vinte então eu espero que isso seja um fato. Claro, a pessoa que disse isso estava em seus trinta. Quando estiverem em seus quarenta, provavelmente vão dizer que são seus novos trinta! Mas acho que estou mesmo feliz que cheguei até aqui. Acho que é um aniversário bem específico. É legal olhar para trás e ver tudo que fiz nos meus vinte. Tenho certeza que será um pouco diferente de agora em diante, apesar de não saber como. Estou feliz que a banda ainda está firme e forte. Nós não necessariamente esperávamos que estivéssemos assim até nossos 30. Quando você começa como adolescente, você vê isso muito mais como algo passageiro.”

Você costumava ter um plano B na adolescência?
“Bom, os planos B meio que desapareceram há mais ou menos cinco anos atrás”, ele sorri. “Não consigo me lembrar o que eram, provavelmente eles eram bem entediantes, pra dizer a verdade. Eu descobri que uma vez eu poderia me virar como um instrutor de mergulho. Sabe, sair e viver ao sol por um tempo…”

Você sabe praticar mergulho?
“Sim. Eu aprendi quando eu era um pouco mais jovem. Devia ter uns 18 anos, eu acho, quando aprendi. Eu fiquei muito interessado e acabei fazendo todos aqueles cursos avançados. É bem fácil passar por todos os processos e acabar virando um instrutor e daí conseguir um emprego na Tailândia ou algo assim.”

O fato é que a carreira de rockstar deu mesmo certo, porque ele não parece muito do tipo instrutor de mergulho. E a verdade é que ele não é tão esquisito e espontâneo quanto a maioria das pessoas devem achar pela da reputação que ele carrega.

Na verdade ele se destaca como sendo bem inteligente para um homem que, como diz a lenda, cancelou uma vez uma turnê americana de imprensa e saiu do país com a desculpa de que ele tinha ouvido que um asteróide estava prestes a cair. (Ele simplesmente ri quando eu menciono o incidente).

Mas talvez não seja o senhor Matthew Bellamy, a pessoa estranha, e sim as pessoas que ele atrai. Recentemente tivemos a notícia de que ele tivera problemas com um “fanático” em sua casa italiana.

“Não tenho certeza de que posso chamar isso de fanático”, ele musa (foi mal!). “Havia esse cara que…estou tentando lembrar o que aconteceu. Eu estava fora, na Austrália e recebi um telefonema de minha namorada que estava pirando com esse cara que, por dois ou três dias, ficava esperando do lado de fora da casa. Futuramente ele acabou desaparecendo, mas eu moro ao lado de um hotel. E o que aconteceu foi que ele tinha ido para esse hotel e dado ao dono do hotel – quem eu conheço muito bem – ele tinha dado a ele um pacote grande para me dar, dizendo a ele que era um primo meu.
Na verdade, antes de tudo ele estava perguntando se havia algum jeito de entrar na casa – dizendo que ele era um convidado meu ou algo assim. Foi um pouco demais. De qualquer forma, o que havia na caixa era meio assustador, eu acho. Havia várias poesias sobre o fim do mundo e esse tipo de mensagem criptológica e coisas estranhas. Havia um par de chuteiras de futebol e ele havia escrito “The Bellamy’s football club” ou algo do tipo. Era meio assustador. Bom, não assustador, mas muito não usual, não eram presentes normais. Era como se ele estivesse tentando simbolizar algo ou me dizer algum tipo de mensagem esquisita, eu acho. Mas como eu disse, eu não estava lá quando aconteceu. Mas minha namorada estava bem assustada. Mas não acho que tenha sido nada preocupante.”

Ela é uma estudante de psicologia, certo?
“É, então ela provavelmente já leu demais sobre o assunto. Ela acabou de terminar o mestrado e tudo mais. Mas agora está se especializando em psicologia do sexo. E isso é…tudo que devo dizer. Haha”

Já que estamos falando de italianos, eu menciono algo sobre Berlusconi, mas ele simplesmente ri outra vez. “Política italiana? Sabe, não presto muita atenção a isso. Ninguém por lá parece levar muito a sério. Eles consideram tudo aquilo como corrupto e tal. Acho que todo mundo tem seu próprio governinho em suas próprias cidades e seu próprio modo de lidar com as coisas.”

Como a máfia?
“Haha! Não sei direito sobre isso. Mas eu já dei de cara com alguns suspeitos que você deve achar que ficam naquela área. Mas política não é tão ativa nas conversas do dia a dia como é na América, por exemplo, onde todo mundo está absolutamente obcecado pelas eleições.”

Você está acompanhando isso?
“É, bom, obviamente todo jornal que você pega tem algo sobre isso, não é? Então é difícil evitar. Eu posso ser apressado demais, mas Barack Obama parece ser provavelmente um bom homem. Acho que ele pode fazer o oposto do que vem acontecendo no passado, o que é muito bom. Enquanto que no passado você ouvia que todas aquelas pessoas iam fazer algo bom – e então eles entravam no poder e, ou eles não faziam nada, ou faziam completamente o oposto. Eu gosto da forma em que Barack Obama começou a falar sobre o Irã e todas aquelas coisas. Espero que ele esteja abrindo caminho, entende? Ele está dizendo as coisas que ele sabe que precisa dizer para conseguir entrar. E aí, quando ele conseguir entrar ele vai dizer ‘Na verdade, eu vou fazer muitas coisas boas!’ Então eu acho que ele pode ser o oposto de todos os outros.”

Ele faz uma cara meio desconfiada quando eu menciono que estava falando com Dominic sobre as teorias de conspirações do 9/11. Porém, ele não se intimida para falar sobre o assunto.

“Há três lados, eu imagino. Há o lado da anti-conspiração, no qual pessoas simplesmente não vão aceitar nada que sugere que pessoas no poder poderiam fazer qualquer coisa contra seu próprio povo. E o outro lado – com relação ao 9/11 – são aquelas pessoas que acreditam que eles não o fizeram acontecer, mas eles permitiram que acontecesse. E então há o terceiro lado, de quem diz que eles realmente o fizeram acontecer.”

Em que campo você está acampado?
“Eu estou, provavelmente, em algum lugar no segundo. Eu acho que com certeza há sentido no fato de que eles estavam parcialmente cientes do que estava para acontecer, mas entenderam que poderia haver – parece horrível dizer isso – grandes motivos para que eles deixassem acontecer. E infelizmente existe uma boa história disso. Muitas pessoas debatem sobre o Pearl Harbor pelas mesmas razões.”

Incidentalmente eu li ontem na wikipédia que você é um grande fã de psilocibina…
“Psilo-quê?”, ele diz, parecendo confuso.

Cogumelos mágicos…
“Ah sim!”, ele ri. “Eu diria que ‘fã’ é meio forte, mas eu acho que com a influência de Bill Hicks ou alguém como David Icke e esse tipo de pessoa…Mesmo grandes músicos dos anos 60, bandas como os Beatles e tal. Eu nunca tomei LSD ou nada assim, mas eu acho que sendo de Devon, onde cogumelos crescem naturalmente, não me parece estranho tomá-los. Eu fico até surpreso que seja visto como uma coisa ilegal. Mas não sou muito interessado em coisas químicas – feitas pelo homem, eu não confio. Até medicamentos oficiais eu não confio. Eu não tomo vacinas ou nada parecido. Mas acho que se cresce na natureza, você não pode ir muito contra isso, pode? Acho que foi Bill Hicks que perguntou ‘Como vocês podem banir a natureza? Como podemos fazer da natureza, algo ilegal?’”

Mas chega de conspirações e alucinógenos, vamos falar de música. Dominic me disse que vocês voltaram ao estúdio recentemente…
“Bom, eu não diria que fizemos nenhuma gravação séria ainda, Nós basicamente só fizemos demos e tal e estamos vendo como elas ficam. E então vamos voltar a elas e fazer mudanças e deixar as coisas se desenvolverem assim. O que não é normal para nós. Mas está dando muito certo. Nós já temos algumas músicas boas. Definitivamente há um pouco de influência do U2 ali, eu diria. Um pequeno cochicho do U2 antigo. Eu consigo ouvir algo disso ali. Nós temos uma música que soa um pouco como ‘New Year’s day.’”

O que? O tipo de coisa New-wave punk?
“Não, há algo sobre a sessão rítmica. Acho que no U2 antigo eles tinham uma boa sessão mínima rítmica – entende, guitarras bem simples e baixo e bateria – Sem muitos pratos – mais tons e surdos. Esse é definitivamente nosso alvo. Um pouco mais primário e mais enxuto.”

Não o jeito normal do Muse de fazer as coisas…
“Não, provavelmente não vai soar assim quando terminarmos!” Ele ri. “O que mais nós temos? Ah sim, nós temos um pouco de glam rock rolando ali também, um pouco do estilo Marc Bolan, o que eu acho meio divertido, na verdade. Acho que podemos nos atrever com isso, no estágio em que estamos.”

Justamente, Muse tem mesmo uma tendência de usar a pia da cozinha, em termos de efeitos de estúdio!
“Haha! Eu acho que nesse estágio nós ainda estamos usando tudo que podemos, mas eu espero que estejamos todos um pouco mais calmos e controlados quando tivermos uma lista de músicas para o álbum. Acho que fizemos certas coisas antes e exploramos vários lugares para nos testar. Mas agora nós gostaríamos de fazer umas músicas muito boas.”

Você consegue fazer um acústico ou tocar no piano grande parte do seu material?
“No passado, nós fizemos algo. Mas na verdade nossas músicas não funcionam assim. Mas eu acho que desta vez há, com certeza, algumas músicas sendo compostas que estão vindo com tipo de background simples para tocá-las no piano ou em um violão. E elas até funcionam assim. Enquanto que algumas músicas que fizemos não iriam dar certo acusticamente.”

Como acontece, Matt vem de um background seriamente musical. Apesar de ter acontecido antes de ele nascer, o pai do Matt já foi membro do The Tornadoes – a primeira banda britânica a ter seu single em primeiro lugar na América.

“O período dele foi entre os anos 50 e 60. Quando eu estava crescendo, ele ainda fazia sessões aqui e ali e pequenos shows em pubs e coisas assim, mas ele não estava em uma grande banda ou nada parecido, naquela época. Ele estava bem aposentado da coisa de fazer turnês.”

Ainda assim, ele deve ter sido uma influência?
“Eu acho que cresci achando que estar numa banda não era necessariamente algo diferente.Esse foi o maior impacto, eu acho. E ser um músico que teve algum tipo de sucesso não parecia estranho também. Então eu posso dizer que isso me deu uma certa confiança. Mas na verdade eu não tive muita influência de sua música, inicialmente. Exceto no último álbum, talvez, em uma música chamada ‘Knights of Cydonia’ pela primeira vez eu fiz uma pequena homenagem àquele estilo do final da década de 50.”

Seu pai é fã de Muse?
“É, ele gosta sim. Ele adora. E ele com certeza nos deu bons conselhos sobre como continuarmos juntos.”

Qual é sua opinião sobre o que o Radiohead fez no lançamento do In Rainbows, sobre downloads de graça? É um modelo industrial que o Muse seguiria?
“Eu não gosto muito, pra ser honesto. Eu consigo entender porque eles fizeram isso, e eu consigo entender porque bandas como Ninch Inch Nails fazem. E nós provavelmente poderíamos fazer. Mas bandas maiores possuem o luxo de dizer que música gravada é apenas um jeito de tornar seus shows melhores – como se eles estivessem simplesmente adicionando novas músicas aos shows. O que eu imagino que tenha sido assim quando a música começou, antes de a música aparecer. É quase como se o ‘boom’ da música gravada tenha morrido agora, e as pessoas tenham que sair e tocar ao vivo para viver. O que eu acho que seja bom, mas o lado negativo é que é uma pena para novas bandas ou bandas mais jovens…Mas dar de graça é meio que um sinal de que nós temos muito dinheiro e não precisamos dele. Como as bandas jovens batem nas portas de gravadoras quando as pessoas as quais eles admiram estão dando tudo de graça?
Infelizmente, muitas dessas grandes bandas nunca estariam nesta posição de poder dar tudo de graça se não fosse pelas grandes gravadoras os apoiando por vários anos. Então eu acho que é um mau exemplo. E nós podemos dar alguma coisa – algumas músicas ocasionais ou pedacinhos aqui e ali – mas geralmente nós só faríamos para tentar abrir caminho para um álbum.”

Seu empresário de turnê faz sinal de que o tempo acabou e, finalmente, Matt você está ansioso para tocar na Irlanda em agosto?
“É, vai ser bom!”, ele se entusiasma. “Acho que é o único show que vamos fazer esse ano que é na verdade nosso show, e não um festival. Então estou ansioso para isto por essa razão. E nós definitivamente vamos tentar trazer algumas coisas diferentes para nosso palco – e se der tocar alguma coisa nova também.”

Alguns minutos e uma pequena discussão depois, Hot Press está de volta no hotel com Chris. Como dois futuros pais (seu quarto filho com a esposa, Kelly está pra nascer em outubro; o meu está pra nascer em questão de semanas), nós gastamos um precioso tempo de entrevista discutindo gravidez e paternidade.

Chris tem dois filhos e uma filha, com idades entre cinco e nove anos. É difícil ter filhos e estar numa banda que está constantemente em turnê, como o Muse?
“Sim, é difícil. Sempre foi. Há uma certa questão de simplesmente se acostumar. Tem sido muito legal esse ano, na verdade, porque nós terminamos a turnê no final de novembro na Nova Zelândia e, tirando isso, acho que o mais longe que fiquei de casa foi cinco dias.”

Calmo e animado, ele obviamente é um tipo de pessoa bem estável. Ele e Kelly irão celebrar 11 anos de casados no próximo ano novo. (É sempre no ano novo que os casais se juntam, não é?) E ele ainda mora em Devon.

“Eu simplesmente gosto de lá”, ele explica. “Eu brinquei com a idéia de talvez me mudar para Londres algumas vezes, mas a não ser que você tire vantagem do que Londres tem a oferecer, não faz sentido ir para lá. Quando você tem uma esposa e filhos, 95% do seu tempo você está sentado assistindo Eastenders de qualquer forma. Você poderia fazer isso em qualquer lugar. Eu prefiro fazê-lo em Devon. É simplesmente uma parte boa do país para criar seus filhos.”

Você é uma celebridade em Teignmouth?
“Um pouquinho. É até engraçado às vezes, mas eu acho que por um tempo era grande coisa para muita gente, mas por eu ter estado tanto em casa nos últimos seis meses, não é mais tão grande coisa. Eles me vêem entrando e saindo do bar ou saindo para almoçar ou que seja.”

O Matt estava me contando sobre esse fanático mais cedo. Muse tende a atrair esses fãs extremos, não acha?
“Eles são bem extremos às vezes”, ele admite. “Não sei se é pelo tipo de banda que somos ou o quê. Quero dizer, eles sempre foram bem leais. Eu nunca me encontrei com alguém que tenha dito ‘Eu amei o seu primeiro álbum, mas detestei tudo que vocês fizeram desde então’. E, à medida que vamos crescendo e crescendo, os fãs continuam conosco. O que é legal. Porque não somos o tipo de banda que fez o primeiro álbum e fez sucesso desde já, nós começamos bem pequenos e ficamos cada vez maiores e maiores. Especialmente de um ponto de vista ao vivo. Parece que existem vários fãs que são fãs da banda sem possuir nenhum dos álbuns. O que é bem diferente. Para várias bandas o importante são os álbuns, e a parte de tocar ao vivo é um mero bônus. Enquanto há muitas pessoas que já foram a uma caralhada de shows nossos e não possuem nenhum álbum.”

Você prefere fazer show ou gravar um CD?
“São duas coisas totalmente diferentes. Acho que álbuns são quase como escrever um diário. É só um documento que representa quem você era em uma época específica. É claro que tendemos a nos direcionar às músicas mais recentes nos shows, mas é só pelo fato de serem as músicas mais frescas e que parecem mais emocionantes de serem tocadas. Mas não acho que nós nos vemos em um período específico de um álbum. Tipo, no momento estamos trabalhando num álbum novo e ainda tocando alguns raros shows aqui e ali. Não nos vemos como ‘divulgando o Black Holes’ – só estamos nos divertindo.”

Como funciona o processo de criação quando vocês estão todos em estúdio?
“Matt escreve as músicas e ele aparece com as idéias – algumas mais desenvolvidas que as outras, algumas vezes. Acho que em cada álbum houve músicas em que Matt tinha uma idéia concreta sobre onde ele queria que elas fossem antes de eu e o Dom termos alguma vez as ouvido. Mas a outra metade das músicas, Matt aparece com o rascunho de um arranjo e alguma idéia solta de onde vai dar, mas é tudo muito aberto à sugestões e opiniões individuais. Quero dizer, muitas das coisas que nós temos trabalhado recentemente, Matt apareceu com uma estrutura bem básica mas outras coisas que eu e o Dom colocamos podem alterar drasticamente o caminho de uma música. Nós fazemos isso democraticamente. Pode haver uma música que eu e o Dom simplesmente adoramos, mas Matt não gosta tanto. Não é justo colocá-lo numa posição de ter que sair para fazer a turnê por três anos tendo que tocar uma música que ele não gosta.”

O Rich Costey vai produzir o próximo álbum?
“No momento só estamos escrevendo, então estamos muito bem sozinhos. Nós temos um engenheiro que chega e nos diz como mexer em tudo. Tirando isso, somos deixados sozinhos. Não temos muita certeza do que fazer. Rich é um cara muito legal e nós fizemos dois álbuns com ele, então nós nos sentimos, é claro, muito à vontade com ele agora. Mas pode ser a hora de fazer algo novo, também. Acho que não há tanta coisa a fazer, se você trabalha com a mesma pessoa várias vezes, sem deixar que isso soe igual. Porque obviamente pessoas têm características próprias que sempre se destacam. Então não estou dizendo que não vamos trabalhar com ele de novo. No momento, estou interessado em me soltar no estúdio com um engenheiro e ver o que acontece. Pode sair uma merda!”

O empresário de turnê deles reaparece e anuncia que é hora de ir fazer a passagem de som. Mas um pouco antes dele ir, eu pergunto a Chris quais são as ambições futuras do Muse. Eles estão trabalhando no álbum número cinco, mas quanto tempo mais ele consegue ver a banda junta?
“Às vezes é perigoso olhar muito para frente, porque a partir do momento que você faz isso, você estará sempre achando que isso sempre vai existir. Acho que somos todos bem realistas quanto a indústria musical, tanto que é ótimo fazer parte disso. Todos amamos ter uma banda, amamos tocar música, amamos fazer shows – mas é algo extremamente inconstante mesmo. Num minuto você é muito famoso, em outro você não é ninguém. Já nos demos bem em lançar quatro álbuns e até agora ainda não experimentamos uma queda – entende, tem se tornado maior e melhor a cada álbum. Mas tenho certeza de que a queda virá, só espero que não por um bom tempo!”

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